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Ilustração da história «A casa das janelas tapadas», da série Histórias que Abrem Portas do Instituto Nuno Cortez.
Histórias que Abrem Portas · N.º 08

A casa das janelas tapadas

Sobre o que acontece quando deixamos o medo ocupar a casa.

A dona Amélia tinha uma casa bonita em Lisboa, numa rua estreita da Madragoa, com janelas altas viradas para o rio.

Era uma casa de três andares, estreita e funda, com azulejos verdes na fachada e uma escada de madeira que rangia no quarto degrau. Tinha sido dos pais dela, e antes disso dos avós. Quando era nova, a dona Amélia gostava de acordar cedo só para ver a luz entrar pelas janelas do quarto de cima. Primeiro cor-de-rosa, depois dourada, depois branca, a deslizar pelo soalho até chegar à cama. O marido, o senhor Fernando, dizia que ela tinha casado com ele por causa da casa. Ela ria-se e não desmentia.

O senhor Fernando morreu num outono. E nesse inverno, numa noite de temporal, partiu-se um vidro da sala com o vento e entrou chuva por cima do sofá.

Um pano de cada vez

Ela tapou essa janela com um pano grosso, de veludo castanho, que tinha guardado num baú. Pregou-o à moldura com pioneses, sozinha, em cima de uma cadeira, para não voltar a acontecer. O vidro foi substituído duas semanas depois. O pano ficou. Fazia sentido. Os temporais voltam sempre.

Na primavera, uns miúdos jogaram à bola na rua e uma bola bateu noutra janela. Não partiu, mas o estrondo foi tal que ela deixou cair a chávena. Ficou a tremer na cozinha um bom bocado, com os cacos aos pés. Tapou também essa. Por precaução.

Depois houve um verão de calor, daqueles em que o ar da cidade parece pesar, e a luz do sol desbotava os sofás e o tapete de Arraiolos que tinha sido da mãe. Tapou mais duas. A seguir, a vizinha do lado, a dona Lurdes, comentou à porta da mercearia que se via tudo para dentro da casa dela, e a dona Amélia sentiu-se estranhamente exposta, como se andasse nua pela rua. Nessa semana tapou as que davam para a rua.

Cada pano tinha uma razão. Todas as razões eram boas. Se alguém lhe perguntasse, e às vezes perguntavam, ela sabia explicar cada uma com paciência e clareza.

Ao fim de uns anos, a casa estava quase às escuras.

A dona Amélia andava pelos corredores de luz acesa ao meio-dia. Habituou-se ao zumbido baixo das lâmpadas e à cor amarelada que deixavam nas paredes. As plantas tinham morrido uma a uma, primeiro a avenca, depois os gerânios, por fim a sardinheira que o Fernando tinha trazido de Óbidos. Ela tinha deixado de comprar outras. Dizia que não tinha jeito.

As visitas vinham cada vez menos. A irmã, que vivia em Setúbal, aparecia no Natal e saía antes do lanche. Dizia que a casa a deixava com dores de cabeça. As amigas do grupo da igreja deixaram de lá ir às quartas. A dona Amélia pensava que as pessoas é que tinham mudado, que hoje em dia ninguém tinha tempo para nada.

Sentia-se protegida. Dentro de casa nada lhe batia, nada lhe entrava, ninguém a via.

Também se sentia muito cansada, sem perceber porquê. Dormia muitas horas e acordava com o corpo pesado. Subia ao quarto de cima cada vez menos, porque a escada lhe parecia mais comprida. Passava as tardes na sala, numa poltrona, com a televisão ligada sem som, a ouvir o relógio da cozinha. Às vezes, ao fim do dia, ficava muito quieta e tinha a impressão de que a casa respirava devagar à volta dela, como um bicho a dormir.

Cena da história «A casa das janelas tapadas»: Sobre o que acontece quando deixamos o medo ocupar a casa.

O manjericão

Numa manhã de domingo de junho, perto dos Santos, a neta veio visitá-la. Chamava-se Carolina, tinha dezassete anos e vinha sozinha pela primeira vez, de autocarro, desde Almada. Trazia um vaso de manjericão comprado numa banca do arraial, com um cravo de papel espetado na terra e uma quadra escrita à mão num papelinho.

Deu um beijo à avó, olhou à volta e ficou um segundo calada. Depois disse que o manjericão precisava de sol e foi procurar um sítio onde o pôr.

A dona Amélia ouviu-a andar pela sala, pela cozinha, pelo corredor. Ouviu-a abrir portas e fechá-las. Ouviu-a subir a escada, o quarto degrau a ranger. Pensou em dizer-lhe que não havia sol nenhum naquela casa, mas não disse. Ficou a ouvir os passos lá em cima.

A Carolina não encontrou sítio nenhum. Então, sem pedir licença, foi até à janela do quarto de cima e puxou o pano.

Os pioneses saltaram com um estalo seco. O veludo caiu ao chão, pesado, a levantar pó.

A luz entrou de repente.

Encheu o quarto, desceu pelo corredor, escorreu pela escada até à sala. A dona Amélia viu-a chegar aos pés da poltrona antes de perceber o que era. Levantou-se depressa, mais depressa do que se levantava há anos, e subiu a escada com a mão no corrimão, já com a frase pronta na boca. Ia ralhar.

Parou à porta do quarto, a meio da frase.

Tinha-se esquecido de que a casa dela tinha aquela cor. O soalho era de um castanho quente, cor de mel. As paredes, que ela julgava cinzentas, eram brancas com um tom de areia. Na moldura da janela havia ainda uma marca a lápis, quase apagada, onde o Fernando tinha medido a altura da filha quando ela era pequena.

A luz a mudar

Ficou ali, de olhos meio fechados, a sentir o sol na cara. Era morno e insistente, e entrava-lhe pela pele de uma maneira que ela não sabia que lhe fazia falta. Sentiu os ombros a descer. Sentiu, no meio do peito, uma coisa a desatar-se devagar, e não soube se tinha vontade de rir ou de chorar. Acabou por não fazer nenhuma das duas. Respirou.

Lá fora ouvia-se o rio, as gaivotas, alguém a chamar por um cão. Sons que estiveram sempre ali, do outro lado do veludo.

A Carolina pousou o manjericão no parapeito e ficou quieta, a olhar para a avó, um pouco assustada com o que tinha feito.

A dona Amélia não disse nada. Pôs-lhe a mão no braço.

O pano continuava ali, dobrado no chão, ao pé da cama. Podia voltar a pendurá-lo quando quisesse. Os pioneses estavam espalhados no soalho, a brilhar ao sol como moedas pequenas. Nenhuma das duas os apanhou.

Desceram juntas e almoçaram na cozinha, de luz apagada pela primeira vez em muito tempo, porque a claridade que vinha da escada chegava.

A Carolina foi-se embora ao fim da tarde. Prometeu voltar no domingo seguinte.

O manjericão ficou na janela. E, nessa tarde, já sozinha, a dona Amélia subiu outra vez ao quarto, devagar, degrau a degrau, só para ver a luz a mudar. Sentou-se na beira da cama. Ficou até o sol se pôr sobre o rio e o quarto ficar cor-de-rosa, como quando era nova.

Não tirou mais nenhum pano nessa semana. Talvez tu saibas como é: há casas que se fecham muito depressa e se abrem muito devagar.

Mas na quarta-feira, ao passar pela sala, parou em frente à janela do temporal. Ficou a olhar para o veludo castanho, e para o fio de luz que espreitava pela borda, onde um pionés se tinha soltado.

Um abraço,
Nuno Cortez

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